Nosso intestino abriga trilhões de microrganismos, entre bactérias, vírus, fungos e parasitas que formam um ecossistema complexo e participam de diferentes funções relacionadas à digestão, ao metabolismo, à imunidade e à saúde global. Cada indivíduo apresenta uma composição particular da microbiota, influenciada por fatores como alimentação, estilo de vida, uso de medicamentos, idade e ambiente.
O sequenciamento genético do microbioma intestinal é realizado a partir da coleta de uma pequena amostra de fezes, utilizada para analisar o material genético dos microrganismos presentes no intestino. A partir dessa análise, é possível obter um verdadeiro “retrato” da microbiota intestinal naquele momento, identificando a diversidade microbiana, a distribuição dos diferentes grupos de bactérias e a presença ou baixa abundância de microrganismos de interesse.
Entre eles estão bactérias frequentemente estudadas por sua associação com a saúde intestinal, como Akkermansia muciniphila, Faecalibacterium prausnitzii, Bifidobacterium e Lactobacillus. Dependendo da metodologia utilizada, também podem ser detectados microrganismos potencialmente patogênicos ou oportunistas, como espécies dos gêneros Salmonella e Shigella, além de determinadas cepas de Escherichia coli.
É importante destacar que a simples detecção de um microrganismo não significa necessariamente que ele esteja causando uma doença. Da mesma forma, uma bactéria não detectada na amostra não pode ser considerada, obrigatoriamente, ausente do intestino. Por isso, os resultados precisam sempre ser interpretados dentro do contexto clínico de cada paciente.
Qual a importância para a prática clínica do nutricionista?
Na Nutrição, o sequenciamento pode funcionar como uma ferramenta complementar à avaliação clínica e nutricional. Quando associado à história do paciente, aos sintomas, à alimentação, ao uso de medicamentos, ao estilo de vida e a outros exames, pode ampliar a compreensão sobre o ecossistema intestinal.
Essas informações podem auxiliar o nutricionista na elaboração de estratégias alimentares voltadas à modulação da microbiota intestinal, como ajustes na quantidade e na diversidade de fibras, maior oferta de alimentos prebióticos e fontes de compostos bioativos e, quando houver indicação, avaliação do uso de probióticos e outras estratégias nutricionais.
Entretanto, é fundamental compreender que ainda não existe uma composição de microbiota considerada ideal e aplicável a todas as pessoas. A grande variabilidade existente entre indivíduos é uma das principais limitações para estabelecer valores de referência universais. Além disso, os resultados podem variar de acordo com a forma de coleta e armazenamento da amostra, a metodologia de sequenciamento utilizada, os bancos de dados empregados e os critérios de interpretação de cada laboratório.
Por esse motivo, o sequenciamento não deve ser utilizado isoladamente para diagnosticar “disbiose”, determinar a presença de uma doença ou definir uma conduta nutricional apenas a partir da maior ou menor abundância de uma bactéria específica. O microbioma intestinal também é dinâmico e pode se modificar ao longo do tempo em resposta à alimentação, medicamentos, sono, atividade física, estresse e inúmeras outras exposições.
Assim, o grande potencial do sequenciamento está em ampliar nossa compreensão sobre esse ecossistema tão complexo e particular e, quando bem indicado e interpretado, contribuir como mais uma ferramenta dentro da avaliação nutricional.
Cada indivíduo possui uma microbiota única e, da mesma forma, as estratégias nutricionais destinadas a cuidar dela também precisam ser individualizadas.